JOEL
Gotas de chuva golpearam seu
rosto inchado de hematomas, cada gota agredindo como um
novo soco, pontapé ou paulada que recebeu, doíam os
grampos ainda pregados na pele, como piercings de mau
gosto, enterrados até os ossos da face, assim como o
lápis de grafite Faber-Castell,
escrita macia, enterrado no olho esquerdo, o direito, roxo
e inchado como bola 4 de sinuca, estreitava sua visão
a um efeito afunilado e fosco de Polaroid.
Corria.
A
lua alta no céu corria também, omissa.
Tropeçou
em uma raiz e caiu no chão, o corpo nu invadido pelo frio da
relva molhada, gargalhadas vararam o som gorgolejante da
chuva e chegaram aos seus ouvidos, ao tentar se levantar ouviu o primeiro
disparo, um trovão explodiu no céu como um cúmplice, seu
antebraço esquerdo passou rodopiando diante de seus olhos, trapos
de carne e nervos deixando um rastro de sangue no ar
em meia-lua como uma aquarela escarlate, o terror não mais
existia, morreu a quilômetros atrás junto com sua dignidade, porém o
desespero o fez levantar ao ouvir os passos se aproximarem, retomou a
corrida a passos trôpegos, o toco do braço esquerdo sangrando
aos jorros, estava perdendo muito sangue, mas tudo era parte da diversão,
não era? Para seus algozes lá atrás era apenas um alvo divertido
de tiro ao alvo, um balde furado a bala que secava. A noite adiante engolia
a relva, as árvores, as pedras. Não via, só sentia, sentia as dores
no baixo ventre onde antes ostentava seus chamados “documentos”, como
dizia sua mãe, nordestina e sem papas na
língua assim como ele, seus “documentos” agora se
dissolviam no trato digestivo de um Rotweiler chamado Tristonho, um
contraponto irônico o animal expressar felicidade enquanto mastigava seu
atestado de virilidade.
Sentia
as dores nas laterais da cabeça onde antes se afixavam suas orelhas, estas
apenas arrancadas com cortes limpos de uma faca de caça, as duas peças
também adicionadas ao cardápio do alegre cão Tristonho. Outras barbaridades
infligidas a seu corpo pareciam irradiar dor para fora da pele, quente,
pulsante, mas já não lembrava como foram geradas, lembrar
detalhes de um pesadelo sempre será impossível para qualquer ser humano, vocês
sabem.
Sentia
o cheiro da terra molhada pela chuva, do vento frio cortante agredindo
sua pele exposta, galhos de árvores chicoteavam seu rosto deixando
sulcos sérios na carne, tudo parecia querer agredi-lo naquela noite.
Um
facho de luz passou por ele tremendo como boia de
farol e clareou a mata a frente, árvores podres e
úmidas surgiram no círculo de luz, rabiscados por gotas de
chuvas que caiam em transversal, a noite a frente desbotando as
árvores a relva a chuva até engolir tudo em sua
escuridão, onde guardava seus segredos mais terríveis.
-
Lá está ele! – A exclamação foi de euforia, a gargalhada que se
seguiu pontuou o sentimento.
Outro tiro.
Seu quadril
explodiu e ele rodopiou como uma bailarina louca. Caiu uma
última vez.
Não
morria.
Porque
não morria? Queria a morte tanto quanto seus algozes e se...
O chão pareceu oscilar perigosamente
e então cedeu, desapareceu abaixo dele e, por milésimos de
segundo, seu corpo pareceu simplesmente flutuar no vazio, uma
liberdade pura invadindo seu corpo.
Então despencou.
Caiu
rolando junto com tufos de terra como se fizesse parte de entulhos
e então parou, uma porção de terra caiu por fim em
seu rosto, olhou através de toda dor e viu a noite negra cerca de
três metros acima através do que parecia um retângulo aberto no mundo,
tudo em volta era um vazio negro, somente a chuva caindo trazia
ainda a realidade do mundo pra dentro daquilo que parecia...parecia...
Uma
claustrofobia o atingiu.
Estava
em uma tumba.
A
brutalidade em que foi exposto o fez prever ali algo que o horrorizou,
tentou se mover e o toco sangrento bateu em calombos na terra,
explodiu em dor que se agregou às várias outras e, finalmente, a
bênção da escuridão parecia vir de encontro a ele, algo então entrou
novamente em movimento, a princípio lhe pareceu ser o solo mais
uma vez, então notou confuso que o que se movia não era a terra, não
era sequer sólido.
Ao
descobrir finalmente o que era, teve a certeza de que havia enlouquecido.
Suas
dores estavam se movendo.
Cada
uma estava criando textura própria e se aglutinando como gotas
de mercúrio, ainda eram dores e, Deus, como doía, mas agora estavam maleáveis, se
mexendo em ondas e parecendo ser sugadas pela terra abaixo
enquanto ele parecia flutuar buraco acima, era como submergir de
uma piscina de gelatina, gelatina sabor agonia, a terra se
arrepiou em um leve tremor e sussurros ulularam do barro
chegando aos tocos das suas orelhas.
A
morte.
Só
podia ser a morte.
Tinha
de ser, á receberia bem, por favor, tinha que ser, não queria morrer louco.
Rostos
surgiram no limiar da cova, para além dos limites da borda,
recortando a chuva, primeiro três, surgindo a
sua esquerda, mais dois á direita e por
último um surgiu no extremo onde estavam seus pés, pareceram
sorrir em uníssono, surpresos.
-
Mas que desgraça afortunada, Joel! – disse um dos rostos,
baixando mais a cara para dentro da cova, sorria
em desdém – você encontrou a porra de uma cova para nós! – todos
gargalharam.
Rostos
conhecidos, rostos amigos.
As
coisas ali dentro continuavam seu movimento, sua dor agora o
acalentava, os sussurros coçavam os seus miolos em uma língua morta, agora
ouvia gritos de pura agonia, distantes como os astros no céu, a terra tremendo
parecia a caixa sonora de onde o som era criado, ouviu uma
risadinha travessa.
**CONTINUA
**CONTINUA
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